Edina Alves: de Goioerê para o mundo… do futebol

Pele morena, cabelo liso bem preso, uniforme de arbitragem, semblante sério, autoridade e competência acima da média na profissão. Essa é Edina Alves Batista, que saiu de Goioerê para se tornar uma referência na arbitragem de futebol profissional, conquistando o espaço predominantemente masculino. Hoje ela é a única mulher a atuar na arbitragem da Série A do Futebol Brasileiro.

Aos 41 anos, Edina tem se destacado a cada atuação. A mais recente foi no clássico Corinthians x Palmeiras, pela primeira vez com arbitragem feminina. Sua firmeza e segurança tem rendido elogios da imprensa esportiva e dos próprios jogadores e técnicos. E está entre os árbitros cotados para apitar, inclusive, a Copa do Mundo do próximo ano.

O estilo dela foi reconhecido e elogiado por um dos diretores de arbitragem do futebol francês, onde ela apitou o mundial feminino. “Se quiser vir para a França, você tem emprego”, teria dito o dirigente. “Eu não troco o meu país por nada. Amo o Brasil. Amo arroz, feijão, bife e salada. Na França, só tem feijão no café da manhã. E raramente”, responde Edina.

Nascida em Goioerê, desde criança ela jogava futebol, futsal e basquete. O pai era caminhoneiro (falecido) e a mãe atualmente encontra-se enferma. Edina tinha 19 anos quando foi convidada pelo pai de uma amiga, que apitava várzea, a ser árbitra-assistente de um campeonato amador. “Quando acabou a partida, ele disse: você tem que fazer o curso, faça o curso que você vai longe”, conta Edina. 

O curso de arbitragem custava meio salário mínimo e ela não tinha como pagar as aulas, nem as viagens de fim de semana para fazer os estágios em jogos. “Minha mãe dizia que não era coisa de mulher e me colocou num curso de crochê e bordado. Eu fazia, mas não gostava. Então, para pagar o curso de arbitragem, comecei a trabalhar escondido em um viveiro de mudas enchendo saquinhos de terra. Por cada mil saquinhos, eu ganhava seis reais”, conta Edina.

Para “tapear” a mãe que trabalhava fora, ela dizia que ia estudar na casa de uma amiga. “Eu trabalhava mais ou menos 12 horas por dia, chegava no viveiro antes de abrir para conseguir encher mais saquinhos”, relata. Para estudar a faculdade de Educação Física, em Umuarama, ela percorria  70 km à noite em ônibus fretado. Aos fins de semana, viajava para estagiar. “Não consegui esconder da minha mãe por muito tempo porque minha roupa ficava cheia de terra”, relembra, ao acrescentar que hoje a mãe reza antes de todos os jogos. 

Durante 14 anos Edina alternou entre auxiliar e árbitra principal. Em 2019 se tornou a primeira mulher a apitar uma partida da Série A do Campeonato Brasileiro masculino desde 2005. Aos amigos que insistiam em dizer que sendo mulher e do interior não teria futuro no futebol, Edina agradece. “Eu sempre disse que, um dia, apitaria a série A. Agora, a cada jogo, esses amigos me procuram, elogiam e analisam a partida. Sempre terminam com um 'é, Edina, você sempre dizia que ia conseguir'. Aos 19 anos, eu prometi. 'Um dia vou ser alguém, mãe'. Agora cumpro”.

“A Fifa não está nos tratando pelo gênero, mas pela simples capacidade. Acho que é a melhor coisa que está acontecendo, não só no Brasil, mas no mundo todo. Se você tem capacidade, tem espaço, porque é futebol de alto nível. Todas as mulheres estão se preparando para chegar e responder”, afirma ela, que por conta da profissão teve que mudar-se para São Paulo.

Homenagem

Com os compromissos diários da profissão, Edina quase não consegue visitar Goioerê, onde ainda moram a mãe e quatro irmãos. E o poder público da cidade está esperando uma “brecha” na agenda dela para prestar uma homenagem à “filha da terra”. 

A ideia é realizar a cerimônia de entrega da Comenda 10 de Agosto ano aniversário de 64 anos do município. A Comenda 10 de Agosto foi criada há mais de 20 anos com o objetivo de homenagear goioerenses de destaque. Essa é a primeira vez que ela será entregue.