‘Quem quer, dá um jeito’: Tatiane Dutra e a trilha que desafiou os limites
O último final de semana foi marcante para Tatiane Carraro dos Santos Dutra. Aos 25 anos, ela enfrentou um desafio que muitos julgariam impossível: percorreu uma trilha no Parque Estadual Lago Azul, em Campo Mourão, amparada por amigos e familiares. O trajeto, que já exige esforço de qualquer visitante, tornou-se um símbolo de superação para quem, há seis anos, viu sua vida mudar drasticamente após um acidente que a deixou paraplégica.
“Eu sempre ouvi falar do parque, mas nunca tinha ido. Mandei mensagem perguntando sobre acessibilidade e me disseram que não tinha. Mas sou teimosa”, conta Tatiane. Após pesquisar mais sobre o local, encontrou o registro de um cadeirante que havia feito parte do percurso e decidiu tentar.
Com a filha, o irmão e a mãe ao lado, optou pelo caminho mais difícil. “Para quem não anda, tudo é um desafio, mas foi maravilhoso! A gente riu, gritou, comemorou”, relembra. Agora, ela já tem um novo objetivo: voltar ao parque para encarar a trilha Aventura, que passa dentro do rio.

Sobre a questão da acessibilidade, o gerente da unidade de conservação, Álvaro Araújo, explica que o parque possui um percurso adequado para cadeirantes. “Nós temos a trilha da Peroba, que dá para o cadeirante ir tranquilamente, sem problema nenhum, mas tem que ser assistido”, afirma. No entanto, ele reconhece que a infraestrutura ainda precisa de melhorias. “Estamos em reforma e nosso banheiro para pessoas deficientes ainda não está pronto”, acrescenta.
O dia que tudo mudou
A trilha do último fim de semana foi mais uma etapa na jornada de resiliência de Tatiane. Em 28 de novembro de 2018, ela saiu de casa de madrugada para mais um dia de trabalho no frigorífico onde era empregada. A viagem de cerca de cinco quilômetros entre Campo Mourão e a empresa, feita em um micro-ônibus, terminou de forma trágica.
Uma falha mecânica fez o motorista perder o controle do veículo, que desceu a ribanceira da Estrada Boiadeira. Duas pessoas morreram e outras ficaram feridas. Tatiane foi uma delas.
“Quando acordei após ter desmaiado, eu estava presa dentro da circular, com as mãos levantadas. Naquele momento, já não sentia meu quadril para baixo”, conta.
A lesão na vértebra L1 pressionou sua medula, interrompendo os movimentos das pernas. Em menos de um mês após o acidente, começou a fisioterapia, mas a reabilitação veio acompanhada de um longo processo de adaptação. “A gente pode imaginar mil coisas que podem acontecer na nossa vida, mas nunca que um dia pode se encontrar numa cadeira de rodas”, reflete.

Superação diária
A adaptação à nova realidade não foi fácil. “Tudo muda: a rotina, o corpo, a forma de encarar o mundo. Mas o mais difícil ainda é a acessibilidade. Nenhuma cidade está realmente preparada para quem usa cadeira de rodas”, afirma.
Os obstáculos foram muitos, mas Tatiane nunca aceitou ficar parada: “Sempre fui independente. Se está ao meu alcance, eu tento. Não quero que ninguém tenha pena de mim. Quero fazer as coisas do meu jeito”.
E foi com essa determinação que encarou a trilha no Parque Estadual Lago Azul. O que para muitos parecia impensável se tornou um dia inesquecível. “Teve gente que disse: ‘Como você vai fazer uma trilha?’. Mas a gente sempre dá um jeito”, resume.
Sem medo do julgamento
Ao longo dos anos, Tatiane percebeu que a maior barreira não estava na cadeira de rodas, mas nos olhares e palavras de quem não acredita. “As pessoas dizem que você não pode fazer isso, não pode fazer aquilo, como se ser cadeirante significasse parar de viver. Eu já acreditei nisso um dia. Hoje, não mais”, diz.
Para ela, a maior lição é não ter medo. “Se eu não tivesse tentado a trilha, nunca saberia que conseguiria. Cada conquista é um passo a mais”, reflete ela.
O futuro ela enxerga com fé. “Os médicos não podem me dar um prazo, mas eu acredito, e as pessoas que me acompanham acreditam também. Quem quer, dá um jeito“, enfatiza Tatiane.